Pular para o conteúdo principal

Resenha Crítica: O Colecionador - John Fowles

Resenha Crítica. 

Título: O Colecionador 
Título original: The Collector 
Autor: John Fowles 
Tradução: Fernando de Castro Ferro
 Editora: Abril (1 Janeiro 1980) 
Número de páginas: 238

O livro "O Colecionador" foi a primeira obra de John Fowles, escrita em 1963, trata-se de um romance e suspense com bases psicológicas perceptíveis em seu enredo. O escrito aborda a história de Frederick Clegg e seu amor platônico doentio por Miranda Grey, moça que Frederick observava desde mais jovem e por quem cultivava grande admiração, como se a mesma fosse um espécime raro de borboleta. 

O autor trouxe unicidade para suas páginas ao contar a história de Frederick e Miranda, trazendo relatos da vida medíocre, simples e conservadora de Freddie, que vivia com sua Tia Annie e sua prima Mabel, a quem achava imenso desperdício de vida por ser deficiente. A maior paixão de "Ferdinand", como se apresenta para Miranda, é colecionar borboletas, paixão, esta, instigada desde novo pelo pai que tinha problemas com bebida e viera a abandoná-lo mais tarde. 

Frederick e sua família possuíam origem humilde, fator que sempre colaborou para o ódio e deslocamento social de Freddie para com outras pessoas à seus próprios olhos, como se jamais viesse a ser suficientemente ser humano para os outros. A situação financeira muda ao ganhar uma aposta na cidade em que mora, trazendo-lhe grandes montantes de dinheiro e impulsionando Frederick a começar os preparativos para a entrada de Miranda em sua vida, entrada que coincide com com a época em que Tia Annie e Mabel saem da cidade, facilitando, assim, os arranjos de Freddie. 

Miranda Grey é uma jovem entusiasta, eloquente e bem instruída estudante de artes, sua maior característica aos olhos de Frederick é a capacidade de se destacar em meio às pessoas, lutando pelo que acredita com ferocidade e sempre com fortes opiniões formuladas sobre seu meio social e a forma com que vivem as pessoas, principalmente as que possuem maior acúmulo de capital. A aspirante à artista apresenta grande asco por pessoas ordinárias, pouco desenvolvidas intelectualmente por escolha, ignorantes, por assim dizer. Uma das características que menos suporta sobre Ferdinand é o fato de ser uma pessoa medíocre que "escolheu" não evoluir, com pequena bagagem para formular discussões e opiniões, a jovem traz sempre o termo "pequenez" para falar de pessoas como Frederick em poucas palavras. 

Ao se dedicar à leitura sem muitos antecedentes sobre a história do livro, suas primeiras páginas têm o poder de confundir os pensamentos do leitor pela forma com que Frederick fala sobre sua vida, se retratando sempre como uma boa pessoa e um marginalizado da sociedade, podendo, então, enganar sua verdadeira intenção sobre Miranda. Frederick tem o costume de justificar seus pensamentos e ações com base na vida de pessoas que ele considera sendo melhores do que ele e que possuem maior reconhecimento social, por imaginar que não se encaixaria sequer um dia em quaisquer círculos sociais, Freddie os culpa por seus pensamentos ruins e autodepreciativos. Uma vítima enferma pela sua casta social. 

John Fowles separa o livro em quatro partes, sendo uma delas dedicada ao diário de Miranda, em que a jovem relata dia após dia sobre seus pensamentos em seu cativeiro para manter a pouca sanidade que lhe restou. Um diferencial no "capítulo de Miranda" é a forma simples e tediosa de uma moça conversando consigo mesma durante todo o tempo, falando sobre sua vida, as pessoas que nela habitam, os acontecimentos dentro de sua prisão... Digo diferencial pois ao pensar no mártir da história escrevendo um diário escondido, é esperado pela maioria dos leitores, que a jovem descreva os detalhes sórdidos de sua experiência como prisioneira e apenas sobre isso, quando na realidade a vítima quer apenas registar ao máximo lembranças de sua vida em liberdade, sejam lembranças frívolas, como grande parte das de Miranda sobre seu vício juvenil por G.P., ou não. 

Miranda durante a história apelida Frederick de "Calibã", nome este que se refere à um personagem de Shakespeare na obra "A Tempestade", sendo Caliban filho bastardo de uma bruxa com o diabo que sequestra uma fada chamada Ariel. O capítulo do diário de Miranda, por mais que deveras tedioso, acrescenta muito ao enredo, apontando o real posicionamento da jovem e sua versão de cada acontecimento que criavam outro significado por detrás dos devaneios de Calibã em suas narrativas. Miranda aponta diversas vezes seu descontentamento sobre a "pequenez" das pessoas, sobre ela ser bem instruída, humilde e se desenhar como defensora dos menos favorecidos, mas ao meu ver, sua humildade é uma máscara muito bem colocada para disfarçar a prepotência que possui, vivendo em uma linha tênue entre seus princípios contraditórios e a clara aceitação de sua superioridade mental. 

Frederick e Miranda tiveram altos e baixos durante toda a jornada e por mais que tentasse se passar por uma pessoa doce e compreensível, quando os momentos "baixos" surgiam Calibã mostrava suas reais intenções, mesmo que de forma sutil, deixando cada vez mais visível seu interior cadavérico e monstruoso aos passos que Miranda se rebelava, deixando sempre claro que tudo que fazia de desrespeitoso contra a moça e se agia com violência era porque não tivera escolha, ela o forçava a agir dessa forma durante os momentos de rebeldia. Ferdinand vive sua vida em um grande delírio conservado de misoginia e possessão feminina, implicando sempre que, tirando Miranda, todas as mulheres são sujas e mundanas, que procuram apenas por alguém que as satisfaça financeira e carnalmente, Frederick apresenta diversas vezes desconforto e desgosto perto de outras mulheres, talvez pela história que viveu com sua mãe, visto que via-a como a vilã por detrás da partida de seu pai. 

Há quem se pergunte se Miranda sofria de Síndrome de Estocolmo, em que a vítima cria distorções de sentimentos positivos pela pessoa que lhe faz mal, entretanto, ao meu ver, na narrativa é possível analisar que na realidade a moça apenas possuía princípios que estavam ali muito antes do aparecimento de Calibã, princípios estes que a impediam de tratá-lo como um monstro e apenas isso, visto que há uma história por trás da vida desse horrível homem e que na concepção de Miranda, todas as vidas merecem respeito e não-violência. Foram nesses princípios que Miranda calculou cada tentativa de fuga, como a própria disse em um momento que teria que vencê-lo na astúcia, planejando usar a menor quantidade de violência possível para livrar-se dele, não corrompendo seus ideais. 

O final da obra não é surpreendente para quem gosta do gênero escrito ou de Psicologia, mesmo que de forma mais generalizada. Como o próprio Calibã citou no início do livro "O que a água é para o corpo, o propósito é para o espírito" e o propósito do delirante protagonista não indicava que mudaria após a partida de sua primeira vítima, apenas continuou e continuará aperfeiçoando-se enquanto houverem oportunidades de belas moças andando nas ruas. 

12/11/2020, 01h49PM. 



Postagens mais visitadas deste blog

Passado Interdito

Recordação que se emaranha, Falta que aprendeu a andar. A saudade não me incomoda, Mas de sentimentos já tenho muitos. Quero sentir e recordar, Não quero sentir falta recordando. Então, anda. Porque do presente, já faço o futuro, E, do meu futuro, faço o passado. Passado distante, Fogueado pelo que vem. Futuro presente, Acarinhado pelo que foi. "...Quero dizer que, quanto ao passado, eu tenho recordações, mas não saudade. Saudade, pra mim, é um desejo de volta. Isso eu não tenho." - Cora Coralina. Texto por Natalia Maciel.  

Direito À Greve, Preservação Trabalhista Ou Lesão Ao Coletivo?

Quando o tópico é direito ao ser humano difícil torna-se falar sobre, de muitas falhas a sociedade e seu sistema o englobam, trazendo consigo antagonismos entre as "castas sociais" existentes. Ao adentrar o mundo do proletário, é possível analisar a luta entre o opressor e o oprimido, que antigamente sofria nas mãos da burguesia e hoje sofre direta e indiretamente pelas garras sujas e bem posicionadas do Estado. Ao se tratar das garantias do trabalhador, este recebeu suas "regalias" com o passar do tempo, visto que, retrocedendo na história dos tempos autoritários, ter uma voz era sinal de desrespeito e perjúrio contra àqueles que estavam no poder, em que o topo da cadeia alimentar da época decidia o merecimento de modo de vida adequado para as classes sociais. Logo, lutar por seus direitos, básicos ou não, era demonstração de ingratidão e balbúrdia. Atualmente a vida tornou-se muito melhor de se viver comparando-se com as décadas precedentes, ou menos explorada e c...